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‘Quem Ama Cuida’: trama de Elenice e Tom amplia alerta da Defensoria do Amazonas sobre violência contra a mulher

“Conhecemos muitas Elenices espalhadas pelo Brasil”, afirma Mariana Sena, atriz que vive a personagem na novela da Globo compartilhou conteúdo da instituição sobre violência doméstica

A história de Elenice e Tom, casal interpretado pelos atores Mariana Sena e Allan Souza Lima na novela “Quem Ama Cuida”, da TV Globo, foi o ponto central escolhido pela Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPAM) para encerrar a campanha do Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento à violência contra a mulher. Na trama, Elenice vive um relacionamento tóxico, marcado pela opressão e pela violência doméstica.

Nas redes sociais, a história vem ganhando repercussão, assim como as discussões sobre o que caracteriza uma agressão. A partir desse cenário, a Defensoria produziu conteúdo específico para o Instagram, buscando alcançar o público que consome diariamente informações pela plataforma. O material teve como foco a identificação dos primeiros sinais da violência doméstica, as mudanças na Lei Maria da Penha e seus impactos na rede de proteção às mulheres, além de orientações sobre onde buscar apoio.

Personagem que vive a violência doméstica na novela, Mariana Sena tem se tornado uma voz ativa no debate sobre os diferentes tipos de violência sofridos pelas mulheres no país. A atriz foi uma das pessoas que interagiram e compartilharam o material produzido pela instituição, destacando a importância de discutir o assunto nas redes sociais. A publicação também alcançou outros nomes de projeção nacional, com a curtida do ator Cauã Reymond, ampliando a visibilidade do conteúdo produzido pela Defensoria do Amazonas.

“Acho muito importante ter esse diálogo com o público e o conteúdo feito pela Defensoria traz essa abertura. A repercussão que a Elenice está trazendo tem essa importância, porque nós conhecemos muitas Elenices espalhadas pelo Brasil, que perdem a vida todos os dias porque estão dentro de relacionamentos como o da Elenice e do Tom. Vivemos em um mundo patriarcal, onde há uma dificuldade em identificar situações vividas como uma agressão”, destacou.

Os primeiros sinais de um relacionamento tóxico

“Você está sempre arrumando confusão com qualquer coisa. Eu não posso ir ao shopping, não posso encontrar um amigo.” Essa é uma fala de Elenice em “Quem Ama Cuida”, em um dos vários momentos em que a violência psicológica praticada por Tom, seu companheiro, restringe sua liberdade. Ao escutar a reclamação da esposa, Tom responde: “E o que você vai fazer lá? Encontrar macho?”.

O diálogo é fictício, retirado de uma cena de novela, mas a realidade revela situações semelhantes em muitos lares brasileiros. O início do relacionamento começa como quase todos: fase da conquista, da paixão, dos risos fáceis, da idealização do futuro. Com o tempo, um comentário sobre uma roupa aqui, uma crítica sobre uma amiga da companheira ali e, assim, começa a construção de um relacionamento tóxico.

O que antes poderia parecer uma brincadeira ou um comentário inofensivo torna-se mais grave. O agressor passa a controlar horários, roupas e amizades; diminui a autoestima da companheira com comentários sobre sua aparência; afasta a vítima de pessoas que integram sua rede de apoio; entre outras condutas que podem caracterizar uma relação marcada pela violência.

“Existe uma dificuldade de se desvincular que, muitas vezes, está ligada a uma dependência emocional ou financeira. Quanto mais a gente mostra a dificuldade que é se desvincular desse tipo de relacionamento, mais a gente conscientiza as pessoas. Vivendo a Elenice, eu percebo que muitas pessoas ainda não têm noção de como é o cotidiano da vida dessas mulheres que vivem relações assim. Eu vivi cinco anos em um relacionamento tóxico, onde não sofri violência física, mas demorei muito tempo para me fortalecer e conseguir sair”, acrescentou Mariana Sena.

Conscientização

Assim como Mariana Sena, outras mulheres demoram a identificar que estão vivendo um relacionamento abusivo. Shaene Matos, de 34 anos, trabalha em uma fábrica do Polo Industrial de Manaus (PIM) e já foi vítima de violência doméstica. A Defensoria Pública do Amazonas levou à empresa onde ela trabalha o projeto “Jornada da Mulher na Indústria”, que promove conscientização e debate sobre violência doméstica entre trabalhadores de empresas do PIM.

Visivelmente emocionada, ao fim da ação, Shaene explicou que viveu situações semelhantes às apresentadas pela equipe do Núcleo de Defesa da Mulher da Defensoria (Nudem). Foram dez anos em uma relação marcada por agressões.

“É muito difícil sair de uma situação dessas, onde o ciclo de violência parece não ter fim. Eu vivi um relacionamento de dez anos, onde eu passei por muitas coisas e não tinha informações sobre como procurar ajuda ou quem procurar. Não julgo quem passa anos em um relacionamento assim, pois eu já passei. O que fizeram aqui, trazendo informações, explicando tudo direitinho, só isso ajuda muito uma mulher que precisa apenas de um empurrão para conseguir ser livre. Eu já me libertei há 6 anos e hoje sou feliz”, relatou.

Ao todo, durante o mês de agosto, foram realizadas mais de 12 palestras e ações educativas em diferentes espaços, além de duas ações itinerantes simultâneas nas Delegacias Especializadas em Crimes contra a Mulher da capital. A Defensoria também participou da Semana da Justiça pela Paz em Casa, oferecendo assistência qualificada às vítimas de violência doméstica, e manteve os atendimentos ordinários, presenciais e virtuais, para pedidos de medidas protetivas de urgência e outras demandas decorrentes da violência doméstica e familiar.

“Reforçamos que a atuação da Defensoria não começa nem termina no Agosto Lilás. Durante todo o ano, recebemos mulheres, ajuizamos pedidos de medidas protetivas de urgência, prestamos assistência jurídica, atuamos de forma articulada com a rede e desenvolvemos ações de educação em direitos. Agosto potencializa uma atuação que precisa acontecer todos os dias”, pontuou a defensora pública Caroline Braz.

Quando a violência não é reconhecida

No Brasil, uma em cada três mulheres viveu alguma situação de violência doméstica ou familiar nos últimos 12 meses, segundo a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, produzida pelo DataSenado e pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), do Senado. No Amazonas, 35% das mulheres relataram ter vivido situações de violência, mas não identificaram as agressões sofridas como violência doméstica.

Considerando essa dificuldade de percepção sobre a própria vivência, a Defensoria do Amazonas reforçou, durante o mês de agosto, ações de atendimento jurídico e psicossocial, palestras de conscientização, rodas de conversa e conteúdos orientativos nas redes sociais, estruturando diferentes frentes para ampliar o debate no estado e alcançar também o público nacional.

Para o defensor público geral, Rafael Barbosa, o reconhecimento nacional das iniciativas reforça a importância do trabalho desenvolvido pela instituição no enfrentamento à violência contra a mulher.

“O enfrentamento à violência contra a mulher exige presença, informação e uma rede de proteção fortalecida. O reconhecimento nacional dessas iniciativas mostra que a Defensoria do Amazonas está construindo caminhos que podem contribuir para essa luta dentro e fora do estado”, afirmou.

O impacto sobre os filhos das vítimas

Em 2025, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio. Em muitos casos, o crime ocorreu em um contexto de relacionamento abusivo, no qual já havia histórico de agressões. Além da vítima e do agressor, outras pessoas também são diretamente atingidas por esse cenário de violência e vulnerabilidade, entre elas os filhos.

Para atuar nessa frente, a Defensoria do Amazonas desenvolveu, em 2018, o projeto “Órfãos do Feminicídio”, coordenado pelo Núcleo de Defesa da Mulher da instituição. A iniciativa busca articular a rede de proteção, garantir acesso a direitos e promover acompanhamento adequado às famílias.

Neste mês de agosto, o projeto também obteve reconhecimento nacional ao receber o Selo FBSP de Práticas Inovadoras de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, concedido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A premiação ocorrerá durante a 20ª edição do Encontro Anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre os dias 15 e 18 de setembro, em São Paulo.

O reconhecimento é resultado de um processo de avaliação que incluiu uma visita técnica da Casoteca do Fórum Brasileiro de Segurança Pública à Defensoria do Amazonas, em março deste ano. O projeto também foi selecionado para ser apresentado no Fórum Nacional da Defensoria da Mulher (Fonadem), no dia 4 de setembro, em Belém.

Onde buscar proteção e atendimento

No Amazonas, mulheres vítimas de qualquer tipo de violência podem contar com assistência e orientação jurídica do Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher (Nudem), da Defensoria Pública. O núcleo conta com uma equipe 100% feminina e oferece atendimento gratuito, humanizado e individualizado, buscando evitar a revitimização.

O Nudem está localizado na Avenida André Araújo, nº 7, bairro Adrianópolis, em Manaus.

Texto: Camila Andrade

Foto: Reprodução

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