Retorno da aluna da Uniube às salas de aula foi motivado pela experiência pessoal de ver a própria mãe ser internada por problemas de saúde mental e pelo desejo de ajudar pessoas idosas
O ano era 1965 e Maria Augusta Lima tinha seis anos quando chegou a Uberaba (MG). Nascida em Sacramento (MG) e filha de um casal que teve cinco filhos, a mudança de cidade ocorreu por causa do trabalho do pai, que atuava na área da construção civil como carpinteiro.
A infância, em terras uberabenses, embora repleta de momentos de alegria, brincadeiras e amor dos pais, não foi fácil. Com uma condição financeira modesta, a família vivia com o básico. Os irmãos começaram a trabalhar cedo, por volta dos 14 anos. A mãe, dona de casa e de saúde frágil, convivia com diabetes e doença de Chagas, além de ser cardiopata e receber um diagnóstico de depressão.
Já na vida adulta, na década de 80, Maria Augusta começou a trabalhar como balconista em uma ótica. Entre os 26 e os 27 anos, vendia bordados e crochê em feiras hippies de Uberaba e Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.
Com as idas para a feira hippie, em Ribeirão Preto, Maria Augusta decidiu se mudar de vez para a cidade em busca de melhores oportunidades. Lá, arranjou emprego em uma rede de postos de gasolina como frentista, chegando a se tornar supervisora. Em 1989, casou-se e adotou dois filhos.
Foi também nos anos 80 que a aluna da Uniube começou a cursar Psicologia na Universidade, mas, no último ano do curso, teve que interromper os estudos por diversos motivos pessoais.
“Acho que ver a condição da minha mãe e dos pacientes internados quando eu ia visitá-la me deu vontade de fazer algo na área”, relembra Maria Augusta sobre a escolha pela Psicologia. O retorno às salas de aula
A volta para Uberaba foi em 2001, com o intuito de ajudar na criação dos quatro filhos de um dos seus irmãos, que faleceu em um acidente de carro. Na cidade onde foi criada, a aluna da Uniube montou com o marido uma empresa de locação e manutenção de empilhadeiras que ainda está ativa no mercado.
Mas, em meio a tantas mudanças e à passagem do tempo, o desejo de cursar Psicologia permaneceu intacto. “Passei décadas pensando em voltar. Eu penso que ainda posso fazer a diferença na vida das pessoas e acredito que não precisamos ficar estagnados na velhice. Em um ritmo diferente, dá para seguir com novos projetos”, diz.
O retorno às salas de aula sendo uma pessoa 60+ causou um misto de alegria e receio de, novamente, não conseguir finalizar o curso por falta de domínio de ferramentas tecnológicas utilizadas na rotina de estudos.
No entanto, com o suporte dos colegas de curso, Maria Augusta se adaptou à nova realidade. Atualmente, aos 66 anos, a aluna da Uniube está no 9º período do curso de Psicologia e já deu início aos preparativos para a produção do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).
“Será feito em um trio com o tema ‘Fim de Vida e Cuidados Paliativos’. Fiz curso de tanatologia em 2018 e estou fazendo outro este ano. Achamos um tema necessário para ser abordado e principalmente para desmistificar o assunto. Temos que pensar na morte para viver melhor, inclusive as nossas relações. Pensar na finitude é um processo que pode enriquecer e transformar nosso jeito de viver o hoje”, afirma.
O futuro
Maria Augusta comenta que voltar à universidade foi transformador. A aluna da Uniube diz se sentir feliz e grata pela nova oportunidade de cursar a graduação que sempre quis. Além disso, a rotina como acadêmica também trouxe um novo ritmo ao dia a dia.
“Só como acadêmica já transformei minha vida com o cuidado da saúde física e mental e com a possibilidade de vários projetos, além de um novo propósito de vida. Mesmo deitando tarde por causa das aulas à noite, levanto cedo e vou às 6h para a academia fortalecer minhas pernas para continuar bem de saúde e poder realizar meus projetos futuros.”
Após a conclusão do curso de Psicologia na Uniube, Maria Augusta deseja exercer a profissão seguindo a abordagem Humanista. Além disso, a atuação como psicóloga não será com crianças, mas com idosos, com o objetivo de ajudar pessoas da terceira idade a lidar com a última fase da vida, tendo como base a própria experiência de envelhecimento.
Pensando em outras pessoas 60+, Maria Augusta pontua que voltar aos estudos é uma oportunidade não só para interagir com colegas de diferentes faixas etárias, mas também para trocar experiências e aprender mais.
“Estar aberto para aprender coisas novas, eu diria, nos mantém cheios de vida. Também penso que a nossa história de vida e os nossos aprendizados podem contribuir de alguma forma com a sociedade”, conclui.

