São Paulo, 01 de outubro de 2026 – As controvérsias em torno de Nossa Senhora Aparecida mobilizaram direita e esquerda nas redes evangélicas. A defesa de Flávio Bolsonaro se desdobrou em ataques à imprensa e acusações de “guerra religiosa”. Na esquerda, perfis criticaram a instrumentalização política da religião e recuperaram ataques a símbolos e instituições católicas.
O achado é o principal destaque da nona edição do relatório “Narrativas Evangélicas e Contexto Eleitoral”, da Casa Galileia e do Instituto Democracia em Xeque. A análise de publicações de 14 a 27 de setembro mostra como os dois campos incorporaram o episódio à disputa eleitoral.
Uma publicação de Flávio negando que pretendesse retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil reuniu 857.402 interações. Portais evangélicos destacaram a negativa e a retratação da GloboNews. Sóstenes Cavalcante compartilhou o desmentido com a legenda “Globo pede desculpas por fake news com evangélicos”.
O perfil Assembleianos de Valor Oficial apresentou o episódio como tentativa de afastar eleitores católicos de Flávio. Outros conteúdos reforçaram a associação do candidato à imagem de Nossa Senhora em aparições públicas.
Uma carta do Conselho Interdenominacional dos Ministros Evangélicos do Brasil (CIMEB), assinada por Silas Malafaia, Cláudio Duarte, Téo Hayashi e Robson Rodovalho, entre outros, acusou Lula e seus seguidores de utilizar informações falsas para promover uma “guerra religiosa entre católicos e evangélicos”.
Na esquerda, Evangélicos com Lula denunciou a instrumentalização política da religião e defendeu a mobilização de católicos e evangélicos. Outros conteúdos criticaram os ataques de Flávio à CNBB e retomaram episódios envolvendo Marco Feliciano, Nikolas Ferreira e a imagem de Nossa Senhora Aparecida.
André Janones lembrou a participação da Igreja Católica na formação do PT e o “chute na santa”. Uma publicação sobre a alegação envolvendo o título de padroeira reuniu 161,7 mil interações. Para a análise, o caso mostra a expansão da disputa religiosa nas redes evangélicas para símbolos católicos e sua relação com a identidade nacional.
A relação de Flávio Bolsonaro com o campo religioso também foi analisada pela Casa Galileia no relatório especial “Primogênito do Messias – A fragilidade das alianças católicas e evangélicas de Flávio Bolsonaro”, lançado em 29 de setembro. O estudo mostra que a aproximação do candidato com lideranças e redes católicas não se converteu necessariamente em apoio amplo e estável, distinguindo apoio eleitoral explícito, aproximação e alinhamento político.
Porchat e Lagoinha
O vídeo “Grandes Igrejas, Master Negócios”, de Fábio Porchat, sobre as relações entre Banco Master e Igreja Batista da Lagoinha, mobilizou respostas de lideranças da direita e compartilhamentos na esquerda evangélica.
Marco Feliciano defendeu o papel religioso da Lagoinha, criticou a tentativa de “macular uma igreja inteira” e retomou sátiras do Porta dos Fundos envolvendo Jesus Cristo. Rayan Santos questionou a imparcialidade de Porchat e a existência de indícios concretos contra os nomes citados.
Henrique Vieira convocou seguidores a “furar a bolha”, e Evangélicos com Lula incentivou a circulação do episódio da série Revelando. A retirada temporária do perfil da série pela Meta, posteriormente restaurado, também gerou reações.
Após Lula chamar André Valadão de “171” e criticar a Lagoinha, Silas Malafaia defendeu a separação entre responsabilidades individuais e o papel da igreja, mas afirmou: “quando Lula debocha e ataca uma igreja evangélica, ele ataca todas”. O relatório registra como uma crítica específica foi apresentada como ofensa ao conjunto dos evangélicos.
Nikolas, Master e bets
Nikolas Ferreira liderou o ranking de lideranças políticas com identidade evangélica, com 13,6 milhões de interações no período e 3,59 milhões em uma publicação. Seus três vídeos sobre o caso Master aparecem no topo do ranking.
O deputado associou ministros do STF, Lula, Lulinha e Daniel Vorcaro a uma crise mais ampla. O relatório aponta conexões pouco claras entre personagens, fatos e responsabilidades, produzindo um enquadramento propício à desinformação.
Moraes, Dino, Fachin, Gilmar, Toffoli e Gonet aparecem nas críticas; Nunes Marques, Mendonça e Fux são omitidos. Nikolas afirmou que “só Deus” poderia intervir e convocou seguidores às ruas, dizendo que o Brasil deveria “parar” na próxima sessão do STF.
A referência à intervenção divina retoma narrativas da quinzena anterior, que apresentavam Mendonça como capaz de responder à crise. O monitoramento também registra chamados às ruas de Lucas Pavanato e conteúdos que associam Master, STF e governo a corrupção e impunidade.
Em outro vídeo, Nikolas chamou Lula de “pai das Bets” e apresentou Flávio como quem acabaria com as apostas. Segundo o relatório, o conteúdo confunde regulamentação de uma atividade já existente com sua criação ou autorização pelo governo, convertendo a acusação em argumento eleitoral.
Outros destaques
Pela primeira vez na série, lideranças da extrema direita tiveram alcance relevante respondendo diretamente à agenda da campanha de Lula. Antes, a dinâmica observada era predominantemente inversa.
Nikolas apresentou propostas como problemas criados pelo governo; Eduardo Bolsonaro afirmou que “voto nulo é voto no Lula”; Gabriel Monteiro encadeou escândalos atribuídos ao governo; e Magno Malta tratou o reajuste do Bolsa Família como compra de votos. O relatório identifica convergência nos ataques e nas chamadas ao voto em Flávio, sem permitir afirmar coordenação deliberada entre os perfis.
Na esquerda evangélica, cresceram pedidos de voto, divulgação de eventos e chamadas ao compartilhamento. A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito formalizou apoio a Lula e reuniu 277 mil interações em um post que questionava a ideia de “voto evangélico” homogêneo.
Janones somou 3,74 milhões de interações em 100 publicações, ficando em quinto no ranking total das lideranças políticas. Benedita da Silva, Marina Silva e Henrique Vieira também se destacaram. A análise aponta ampliação da presença da esquerda nesse ranking, embora o PL mantenha o maior alcance.
Na seção de desinformação, uma postagem usou o elogio de um representante político do Hamas ao discurso de Lula na ONU para sugerir alinhamento com o grupo, omitindo a condenação do presidente aos atos terroristas da organização.
Monitoramento quinzenal
O monitoramento acompanha lideranças religiosas e políticas, organizações, mídia e influenciadores evangélicos no Instagram, YouTube, X, TikTok e Facebook, combinando análise qualitativa de publicações de maior engajamento e buscas complementares no Data Lake do Instituto Democracia em Xeque.
A série quinzenal acompanha, desde maio, narrativas e disputas políticas no ecossistema evangélico nas eleições de 2026. As edições anteriores abordaram bolsonarismo, voto cristão, perseguição religiosa, esquerda evangélica, Augusto Cury e narrativas bíblicas na crise do STF.
Acompanhe os relatórios em: https://casagalileia.org/categoria/cgdx/
Sobre a Casa Galileia
A Casa Galileia é uma organização da sociedade civil criada em 2021 que atua, por meio de campanhas e comunicação estratégica, para engajar cristãs e cristãos no fortalecimento da democracia e na promoção da justiça climática. Laica e sem vínculo com igrejas, partidos ou candidaturas, atua em quatro frentes complementares: campanhas, consultorias, construção de movimentos e monitoramento e análise qualitativa de narrativas do campo cristão. Saiba mais em: https://casagalileia.org/
Sobre o Instituto Democracia em Xeque
O Instituto Democracia em Xeque (DX) é um instituto de pesquisa independente voltado ao fortalecimento do Estado Democrático de Direito. Sua atuação busca fomentar a integridade da informação por meio do acompanhamento permanente do debate político digital, de campanhas de desinformação e de violações de direitos humanos, além do desenvolvimento de pesquisa, tecnologia e inovação em defesa da democracia. Saiba mais em: https://institutodx.org/

