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Saúde

“Todo mundo tem filho, menos eu”: a saúde mental na reprodução assistida 

A infertilidade e o próprio tempo de espera do tratamento reprodutivo podem envolver ansiedade, estresse, culpa e sofrimento emocional; especialistas explicam o que deve ser observado e quando buscar ajuda 

A espera pela maternidade ou pela paternidade, mesmo quando marcada por expectativa e esperança, também traz insegurança, ansiedade e outros desafios psicológicos. No contexto da reprodução assistida, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) reconhece a importância do acompanhamento por profissionais de saúde mental especializados na área, em razão dos impactos emocionais que surgem ao longo da jornada, sobretudo diante da espera e dos resultados negativos.

O cuidado com a saúde mental, ainda um tabu em parte da assistência em reprodução humana, tem ganhado espaço à medida que se consolida a compreensão de que a jornada reprodutiva tem uma dimensão emocional e relacional além da médica. Na Clínica Genics, esse cuidado faz parte do acompanhamento dos pacientes ao longo do tratamento, como diz o sócio-fundador, Philip Wolff.

“O objetivo é que as pessoas se sintam pertencentes ao processo e a si mesmas, valorizando o tratamento. A saúde mental envolve múltiplos aspectos, como o cuidado com a autoestima e, por exemplo, inclui minimizar impactos de depressão e resultados difíceis dentro do processo da reprodução assistida”, diz Wolff.

Na visão da psicóloga perinatal e da reprodução assistida da Genics, Camila Gaspar, o acompanhamento psicológico não precisa começar apenas quando o sofrimento já se tornou intenso ou quando há sinais de ansiedade ou depressão. O cuidado emocional pode começar em diferentes momentos da jornada reprodutiva, inclusive de forma preventiva, oferecendo espaço para que a pessoa compreenda e elabore as emoções envolvidas no processo e encontre recursos para lidar com as incertezas e as mudanças que surgem ao longo do caminho.

Esse acompanhamento também pode ser especialmente importante quando a experiência começa a repercutir no trabalho, nos relacionamentos, na autoestima ou na percepção que a pessoa tem de si mesma. Camila Gaspar diz que a diferença entre um sofrimento esperado e um quadro que exige tratamento aparece em critérios objetivos. “A avaliação deve considerar a intensidade e a duração dos sintomas, o contexto em que eles aparecem e os impactos que provocam na rotina e no funcionamento da pessoa. Dessa forma, é possível diferenciar um sofrimento emocional esperado diante de uma experiência difícil de um quadro que necessita de atenção clínica”, afirma a psicóloga.

A literatura científica dá a dimensão do problema. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 no Archives of Gynecology and Obstetrics, que reuniu 44 estudos e 53.300 mulheres com infertilidade, identificou prevalência de 22,9% de transtorno depressivo maior, 13,3% de ansiedade generalizada, 78,8% de estresse e 31,6% de sintomas depressivos aferidos por escalas.

Os números convivem com uma distinção que a psicóloga considera necessária no atendimento. “O sofrimento emocional pode ser uma reação compreensível diante de uma experiência difícil e não significa, necessariamente, a existência de um transtorno mental. Por isso, é importante acolher e validar esse sofrimento sem, de um lado, minimizar aquilo que a pessoa está vivendo e, de outro, transformar automaticamente uma reação emocional em um diagnóstico”, afirma Camila Gaspar.

Diferença dos sintomas em homens e mulheres

A infertilidade pode despertar sentimentos semelhantes em homens e mulheres, como tristeza, ansiedade, culpa, medo e sensação de impotência. A principal diferença, segundo a especialista, está na forma como esses sentimentos são socialmente permitidos e expressos.

Nos homens, a infertilidade atinge diretamente questões relacionadas à masculinidade e à potência sexual, o que muitas vezes dificulta a verbalização do sofrimento, e o impacto emocional aparece de maneira menos evidente, por meio de silêncio, irritabilidade, isolamento, dedicação excessiva ao trabalho ou uso de substâncias.

Entre as mulheres, o sofrimento tende a ser mais frequentemente verbalizado e associado a sintomas de ansiedade e depressão, além de haver maior espaço social para falar sobre emoções e buscar apoio durante o tratamento. Para a especialista, a maneira de vivenciar e demonstrar esse sofrimento é influenciada pela socialização e pelas expectativas de cada gênero, o que não significa que homens sofram menos ou mulheres sofram mais.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a infertilidade como uma condição que pode provocar sofrimento emocional, estigma e impactos sociais e financeiros, além de efeitos na saúde mental. Segundo estimativa da própria entidade, em dados de estudos realizados entre 1990 e 2021, 17,5% da população adulta, aproximadamente uma em cada seis pessoas no mundo, enfrenta infertilidade ao longo da vida.

Durante a jornada da infertilidade, algumas pessoas podem interpretar suas próprias reações emocionais de forma negativa, questionando a si mesmas por sentirem tristeza, incômodo ou dificuldade em lidar emocionalmente com a notícia da gravidez de outra pessoa. Esses sentimentos, no entanto, não significam que a pessoa seja egoísta ou incapaz de se alegrar pelo outro.

O julgamento externo e a cobrança interna podem transformar uma reação emocional compreensível em culpa, com pensamentos como “eu deveria estar feliz” ou “estou sendo uma pessoa ruim por me sentir assim”.

A especialista explica que a culpa pode surgir quando a pessoa acredita que deveria sentir apenas alegria diante da gravidez de alguém próximo. “Existe uma expectativa social de que uma notícia de gravidez seja recebida com alegria, mas, para quem enfrenta dificuldades para engravidar, essa notícia pode despertar sentimentos diferentes ao mesmo tempo. É possível amar alguém, desejar sinceramente a sua felicidade e, ainda assim, sentir tristeza diante daquilo que a própria pessoa está vivendo. O importante é reconhecer e validar esses sentimentos, sem transformá-los em um julgamento moral sobre si mesma”, diz Camila Gaspar.

Em setembro, mês da campanha de prevenção ao suicídio, a orientação das especialistas é que o sofrimento persistente seja levado a um profissional de saúde mental. O Centro de Valorização da Vida (CVV) atende de graça pelo telefone 188, 24 horas por dia, e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) fazem o acompanhamento na rede pública.

Sobre a Clínica Genics:

A Clínica Genics é especializada em reprodução humana assistida, com sede em São Paulo, e estrutura seus tratamentos a partir de diagnóstico individualizado e técnicas baseadas em evidência científica. Já realizou milhares de procedimentos, entre fertilização in vitro, inseminação intrauterina e criopreservação, acompanhando a jornada reprodutiva dos pacientes do início ao fim.

Conta também com equipe multidisciplinar em endoscopia ginecológica e cirurgias minimamente invasivas, com atuação voltada a endometriose, adenomiose e outras alterações uterinas.

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